quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Frida

Adalfrida sabia que estava louca. Percebeu que um lugar feio assim, não merecia alguém como ela. Descartou esse mundo e pensou que poderia inventar um universo só seu. Não havia espaço para mais ninguém nesse universo inventado. Logo que perceberam o que estavam acontecendo, tomaram-lhe as coisas. Tudo o que restou foi um tinteiro, a cama, os arames no colchão da cama e as vozes. Vozes. Escrevia sobre elas nas paredes do quarto e por causa disso, foi transferida para uma ala onde não existiam paredes. Adalfrida usava o que tinha, e ela tinha arames e pele. A enfermeira ia toda semana curar os cortes. Adalfrida olhava para seus braços. E pulsos. E pernas enquanto imaginava onde mais poderia escrever. Tomaram-lhe os arames. Pacientes de sua ala não eram autorizados a ter objetos pontiagudos... Mas adalfrida tinha os dentes; e esses, ninguém poderia tomar. Não achava paredes brancas muito interessantes. Ela não entendia, - por que não pintam essas malditas paredes ? - De castanho talvez, como seus olhos. Elogiavam tanto a cor dos seus olhos lá fora ! A louca não gostava de se lembrar da vida lá fora... amava tanto os passeios, os casamentos, as fúteis senhoras... Lá fora, morava com os pais; lá dentro dividia espaço com ninfetas arruinadas e viciados imbecis. Loucos... mas adalfrida não via demência neles. Ela não via nada além de delírios projetados por sua própria mente. Adalfrida acreditava que não era preciso parar de respirar para morrer... sabia que às vezes a alma também morria. Sabia que estava morta,como sabia que estava louca, como sabia que sabia de muitas coisas que as vozes lhe contaram. Ela não tinha muita opção. Amarrou os lençóis no lustre do quarto e partiu... De forma devagar, dolorosa e prazerosamente prolongada.  




de minha autoria.

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