segunda-feira, 25 de junho de 2012

Andares


Não saberia dizer há quanto tempo estava perdida. Era uma vida enlutada, transmudada nos vinte andares do vão adiante... Prostrada no alpendre, ele anunciava aos berros as brigas mal resolvidas, escondidas pelas paredes da casa ou no baú, à sete chaves. O barulho que ele fazia era insuportável. A morte lhe parecia reluzente, transbordando, convertida nos 550 pés de altura que lhe esperavam. Quis roubar do jovem werther um modo de tornar sua cena final muito mais dramaticamente poética, então era o seu suicídio em dois atos
Suspirar
Pular
É a cabeça que bateu na cantoneira, é a melodia bizarra do sintetizador e do vizinho que ouviu o rebentar do corpinho miúdo no asfalto.Nada mais poético que andares.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Bilhete para o deus Pã

Imprimo minha libido nos espocares da ipoméia. Seu balido é o fio que me liga à réstia dessa mata e seu desejo ébrio é o laço que me incorpora de modo mais lascivo... e extenso. Sua flauta se espalha pelos ares e sopra na brisa seus cânticos, na brisa, seu hálito doce... Meu potentado deus que habita a relva densa, senhor dos ventos, senhor dos olhos e olhares, mestre das portas e dos portais, submeto-me a ti, submeto-me à suas vontades por completo, curvo-me sobre suas lágrimas que  as minhas, de saudade, já deságuam por dentro. Dedico-te meu sangue, dedico-te toda uma vida.

De sua amada, Eco

domingo, 15 de abril de 2012

escarro.

...à sua imagem no espelho
já não existe prazer
ou vontade de revê-lo !!
sua lacuna intelectual é uma lástima
tão previsível, seu ego asceta...
cuspo-lhe todo o meu espanto
todo o desse álcool-enredo
que me fizeram gostar tanto





grandessíssimo filho de uma puta, você não é tão brilhante quanto pensa... espero que um dia você perceba.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Reflexo da alma

Em que espelho perdi mesmo minha face? 
vivo procurando reflexos de minha alma 
procuro por diferentes olhos e olhares 
um eu perdido por algum lugar.

Que o silêncio possa se estender por todo o percurso da madrugada. 
Passo os olhos no espelho procurando qualquer palavra que possa me explicar absolutamente 
o significado do não-amor... 
que me revele o amargo, o ausente e afogue essa urgência narcisista que alcança cada pensamento meu. 
Passo os olhos no espelho atrás de qualquer imagem que possa me revelar a sonata em ré maior presa aqui 
em qualquer lugar. 
Mas não encontro. 
Mas não são nada. 
Só reflexos.

Mais um verão que chega e vai embora.
Mais algumas voltas no relógio da vida
e tudo que eu vejo é o meu semblante 
sempre fantasiado de cinza.
Diga-me, o que devo fazer pra voltar a ver o que outrora era festa?
Hoje o silêncio é soberano.
Talvez nem ele, de certa forma, aqui se encontra.
Diga-me, o que devo sentir pra ocupar o lugar que jamais pensei deixar sozinho?

Diga-me o que devo fazer para ocupar esse espaço vazio.
Preenchido de um pedaço de céu claro e algumas poucas folhas de papel -cheias de nada também-
Diga-me o que devo sentir pra ocupar o lugar que jamais pensei deixar sozinho. 
Passo os olhos no espelho e é quando me olho nele, que o vazio se torna cheio,o silêncio se amarfanha dentro de cada entranha
e me suga o pouco do sentir que ainda me resta.
Já não me resta.

Autoria: Liipe e Daniela