quinta-feira, 17 de março de 2011

Cartas de Solis

Passos teciam uma sinfonia desafinada... O sol mal nasce e já era possível escutar os sons do dia lá fora. O cheiro úmido da alvenaria da casa e o musgo que saltava entre as rochas da calçada marcavam características peculiares daquela viela. Com um copo de uísque vazio nas mãos, Dona Solis ordenou à criada que lhe trouxesse outra dose, depois, retirou do velho baú seu precioso calhamaço de cartas, nunca antes lido... Palavras purgadas, uma a uma, dor a dor; Toda a sua vida retratada, naqueles quinhentos e poucos envelopes trancados à chave. A velha morava numa casinha simples, as paredes eram de reboco e o espaço era modesto; dois ou três cômodos, talvez, suficientes para ela e mais ninguém. Viveu alí todos os dias da sua vida e lá se proprôs a morrer. Era uma casa vazia, como a proprietária. Dona Solis era magra, conversava inclinando-se para frente, quase afônica, sussurando com voz rouca e arrastada. Com certeza mais de setenta anos – Era enrugada, de cabelos secos, unhas tortas e sujas.  Estava doente, há décadas doente de uma enfermidade que lhe trazia delírios e dores, a cada hora mais freqüentes. Para manter sua sobrevida, passou a vender o que estava sobrando... Terminou sendo quase a casa inteira, exceto por seus livros e seu baú de cartas. Dona Solis nunca temeu ser breve; seu maior medo era ser cega, surda e muda para as causas do mundo. A velha nunca teve medo de chegar ao fim da vida, nem quando jovem, mas a morte havia se tornado algo tão iminente que ela passou a ter horror a ela. Talvez esse seja o verdadeiro mal da velhice, perceber que aquela pretensa imortalidade mais própria da juventude não é possível. A fumaça do cigarro de solis dançava entre os dedos, percorria portas e janelas até se misturar com o vento forte da manhã. Na janela, acomodava-se em seu xale cinza enquanto ouvia um rádio tímido sussurar que os EUA acabara de lançar bombas no Japão. – Não sou mesmo desse tempo. Esse mundo não há quem concerte – Repetia, depois ria o riso histericamente embriagado dos grandes poetas. Quando jovem, queria concertar o planeta. Seus vinte e poucos anos autorizavam esse tipo de desejo... Quando nos resta muito tempo de vida, é forte a ilusão de que o mundo será mais doce amanhã.  Dona Solis, olhava todos os dias para o caminho de pedras que se apagava antes do fim da rua. Por que teria se apagado o caminho, se o prédio da escola onde estudou ainda estava lá ¿ Talvez porque os alunos não mais. Estes já tinham ido há muitos invernos. E ela não demoraria. Num canto mudo, o rádio continuava sobre um coto de braço correndo embaixo da chuva radioativa, atônito, sem destino. Sobre uma mãe, transtornada, carregando os destroços do filho enrolados em um pano branco. Sobre Dona Solis, Sentada no tapete de pele, tocando os papéis com a ponta dos dedos, num gesto carinhoso como a despedir-se de si própria. Quantas mil histórias naqueles envelopes, histórias de um tempo em que a vida era simplesmente ver casais dançando como mariposas, ouvir as ondas ruidosas e encher cálices de vinho para rapazes bonitos nos balcões das tabernas. Dona Solis acendeu sua lareira e ateou fogo, de uma só vez em todas as cartas lacradas, agora eternamente inéditas. Ela morreu pouco tempo depois, acuada no sofá da sala, junto das cinzas de suas memórias que ela tentava, em vão, reconstruir. 




de minha autoria.

2 comentários:

  1. Deixar os leitores curiosos e depois finalizar é crueldade =/
    Linda narrativa

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  2. Né por nada não, mas é impossivel não notar os wiskys, cigarros, decadencias, e morte em seus textos. Gosto desse estilo romantico! Gosto muito!! Muito bom o texto! Você sempre sabe escolher as palavras certas (:

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