sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eu

Sou meio homem, pouco feminina e muito feminista. Sou estrategista de mim mesma.Sou mulher de vontades muito simples, mas que essa simplicidade seja sempre a essência de meus desejos mais intangíveis(e secretos). Sou isso, sou aquilo, sou uma sinonímia de definições que me deixa alucinada ! Gosto de “marximizar” a vida, gosto de racionalizar da forma menos racional possível, sou insensível, multifacetada... e acredito que assim sejam todos os meus semelhantes. Sou assim, e gosto de ser assim, gosto dessa sensação de me autobastar... Principalmente porque me denota um quê de arrogância. Não aceito críticas. Sou uma crítica de mim mesma, e sinceramente ? São poucos os que me instigam a ouvir masturbação sociológica sobre minhas atitudes. Bom, eu sou essa e essa é sem dúvida a minha melhor e mais honesta análise.

críticas*: que não sejam construtivas




domingo, 2 de outubro de 2011

   CULTURA

   palavra de significado amplo, designação para toda e qualquer produção do pensar e do labor humano. Ela é um ponto básico para a  formação intelectual de qualquer povo e deve ser estimulada em quaisquer circunstâncias. Há muito a cultura vem sendo posta de lado pela secretaria municipal, que tinha como dever executar a política cultural da cidade. Faço essas considerações para deixar claro minha tristeza pelo descaso e pela deteriorização dos valores culturais da nossa gente. É fundamental valorizar as manifestações culturais características de cada região, é necessário resgatar essas raízes montes clarenses que estão, pouco a pouco, morrendo nas mãos das minguadas verbas da prefeitura. Assistimos essa realidade perversa, que ao longo dos anos, distancia o povo da própria identidade e torna a cultura ainda mais inacessível.  Assistimos, pesarosos, ao dissipar das nossas raízes pois Sem espaço e estímulos torna-se muito difícil preservar essa parte tão importante da nossa história. Montes Claros carece de casas de espetáculo decentes, de políticas de incentivo à cultura e grande parte da classe artística da cidade não está em paz com isso. Nós clamamos por melhoras! Pois acreditamos, sinceramente, que um povo sem cultura, é um povo sem identidade, sem unidade e sem história.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Desilusão

É cruel, é castrador
Fuja sempre do perigo !
Seja ele quem for
É atroz, é pelega
cultive a antipatia
por quem for que seja
é demente, é ópio
amor adequado
só se for amor próprio.

Um conselho: sê só, sê tu por inteiro, sê si e só.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

É o dito cujo se despedindo

As palavras já começam a traduzir o que eu não quero dizer.
Minhas lágrimas assumem tudo aquilo que me envergonha admitir: Onde eu estava quando seu sorriso foi embora ? Em que planeta eu estava quando você esqueceu aquele amor, outrora tão grande ? você, minha decepção mais doce, me tirou tudo. Não deixou mais nada, só aquele desejo insuportável de sumir... Aquele desejo doído de exorcizar sua voz que ecoa ressentida na minha cabeça , de despir meus sentidos que ainda estão nos seus abraços, de esquecer do aconchego bolito e quente que você estragou. Por que você está indo embora ? Você sabe, somos o estágio mais perfeito da completude. Se lembra de copacabana ? Da nossa pressa num dia de tempestade, parando em cada alpendre da rua ? Se lembra das missões impossíveis no meio da madrugada e do fato de eu andar sempre de meinhas? Você é meu complemento, meu, meu, meu! Então não me peça para parar. Não se desiste de um algo assim tão de verdade... Isso é errado, é desonesto...

porque eu te amo. 
de verdade. E se isso não significa nada é melhor que você volte aqui e concerte essa dor doentia antes que eu a arranque de dentro de mim – com coração e tudo.

Não te peço nada. Fique tranquilo, já não insisto, já nem espero nada de você. Não há mais o que dizer porque tudo já foi dito. De qualquer forma, suas coisas estão guardadas.

I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não preciso crer

Não preciso crer em nada. Acho que especular sobre o verdadeiro sentido da vida (ou pós-vida) é querer saber demais. Contento-me com a minha pequeneza e ignorância. Contento-me em compreender que a morte é uma excrescência - um mal que sucede outro ainda maior chamado velhice – e que por isso não devo esperar por nada que não esteja ao alcance dos meus olhos. Sou existencialista, sim ! E faço desse defeito minha maior qualidade... Pelo menos não sou alienável e nem ando por aí empunhando bandeiras segregacionistas porque uma figura mitológica (tão mortal como eu, diga-se de passagem) ordenou... Mas isso é discussão para outra ocasião, para um jantar iluminado à luz de velas, talvez. O fato é que eu não preciso crer em nada maior. Não preciso cultivar nada que me subjugue, não consigo cultivar algo que me peça tanto e me dê tão pouco. Consigo cultivar o amor, os amigos... E pra isso não preciso mais que dois reais e um maço de Hollywood no bolso. Não preciso crer em Deus, mas admito que preciso crer em qualquer outra coisa: e creio ! Creio na humanidade, creio na vida, creio que essa última, em especial, é efêmera e precisa ser aproveitada da forma mais maluca possível. Afinal, os vermes hão de comer a todos e a vida, no fim das contas, não tem valor algum se não para o próprio ser vivente... É uma pena tanta existência desperdiçada, tanta divagação ao redor de merda alguma. Se toda essa merda fosse convertida em alimentos não perecíveis, talvez alimentássemos a áfrica umas duas ou três vezes. Tanta vida que poderia ter sido e não foi, tanto adeus que não pôde ser dado, tanto desejo que não pôde ser consumado... e mesmo que tivesse sido, continuaria valendo nada. Um nada, caso você não saiba sugar aquilo que tem de bom em não ser um carbono 12 embaixo da terra.
Continuariam sendo beijos e abraços vazios, despreparados, preenchidos de um tudo que ainda não vivemos. E talvez nem vivamos... Porque a vida passa e ainda tem gente que pensa que precisamos crer.

Não preciso crer em nada. Creio nos meus amigos, creio em mim... e isso é crer o bastante.




de minha autoria (é um desabafo, então por favor, parem de tentar me converter)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Camélia

Lôbrega. Com pedaços de roupa e garrafas no chão. Um cigarro meio queimado e um semblante típico daqueles que morrem de olhos abertos. Um sorriso característico daqueles que sabem que a morte acolhe a todos –sempre- e quando menos se espera... Estava morta e assassinada: pelos peitos, pelos pulsos, pela cara... Talvez por ser uma exceção. Talvez por ser o conjunto de TODAS as exceções. Até caída ali sob a mesa, ela tinha um quê de tristeza clássica, um quê de rebeldia ímpia impregnada na pele em forma de bolor. Um quê que eu bem gostava nela... Um algo que fazia o outro chorar.
Ela
um mistério
camélia...
...me dizia: “você tem que entristecer as pessoas, assim elas não percebem o quanto você está triste”. Talvez estivesse certa, não sei. Dela, pouco se sabe. Dela, não se sabe nada ao certo. Dela, só se sente: sente bem, sente que ela trazia aos berros aquela liberdade silenciada que eu tanto procuro. Que eu tanto sinto falta.

Apodreça em paz, Bitch.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

E aí, meninas ? Vai uma maçã ?

Me impressionam aqueles que, em pleno século XXI, insistem em basear suas vidas num fundamentalismo tão misógino e discriminatório.  Perdoem-me os crentes de qualquer fé: Mas as escrituras são muito claras. Não venham me falar que isto ou aquilo está fora do contexto, não venham me falar de “coerência Hermenêutica”... Pra mim isso é puro sofisma (vulgo: bullshit, recalque de cristão com probleminha) de quem só enxerga aquilo que quer ver. Por isso faço questão de postar uma parte (apenas uma parte) das passagens bíblicas que ilustram o papel da mulher para o chamado “Deus” cristão. Deus cujo os ensinamentos servem de alicerce para a nossa sociedade:


''Os maridos devem permitir que as suas mulheres, que são de um sexo mais frágil, possam orar''. - I Pedro 3:7

''A cabeça do homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus''. 
- I Coríntios 11:3

''O homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem''. 
- I Coríntios 11:9

''Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja ''. 
- I Coríntios 14:33-35

''Se a mulher trair o seu marido, ela será feita em objeto de maldição pelo Senhor, sua coxa irá descair e seu ventre inchará''. 
- Números 5:20-27

''Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte''.
- Deuteronômio 22:20-21

''É melhor alojar-se num canto do terraço, do que com mulher rixenta em casa espaçosa''. 
- Provérbios 25:24

''Aquela que é verdadeiramente viúva e desamparada, põe em Deus a sua esperança e persevera, noite e dia, nas súplicas e nas orações. Aquela, porém, que se entrega aos prazeres, mesmo vivendo, está morta''. 
- I Timóteo 5:5-6

''A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. 
- I Timóteo 2:11-13

''Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos''. 
- Efésios 5:22-24 

Pois bem, é daí que surge o machismo, é desses (des)ensinamentos que surge o ideal másculo que não aceita estar numa posição inferior, ou equiparada a de uma mulher. Quando Marx disse que “a religião é o ópio do povo”, ele nunca esteve tão errado. A religião não só é o ópio como é a desgraça, a guerra e a perdição de todos os povos viventes. Vide mutilação clitoriana, estupro corretivo e pedofilia clerical. Onde estão as mulheres modernas ¿ Tão “civilizadas”, emancipadas, tão progressistas... Não as encontro. Só encontro aquelas amélias, as iracemas... Que tem preguiça de galgar direitos mas nunca perderam uma missa de domingo, que querem igualdade salarial mas organizam quermesses e apóiam uma religião falaciosa que sempre as deixou em segundo plano. Isso me revolta. Algumas mulheres parecem gostar do tratamento coadjuvante, do tratamento “moeda de troca” que recebem em determinadas religiões (no Brasil). Nasci numa família tradicionalmente cristã, estudei a maior parte da minha vida em colégios católicos e participei de metade dos rituais bizarros da igreja (Batismo, primeira eucaristia, crisma...) mas sabe ¿ Preferi expurgar isso da minha vida antes que eu fosse alienada, antes que eu fosse LOBOTOMIZADA.  Mulheres do mundo, uni-vos ! Odiemos o fundamentalismo, inimigo da nossa sexualidade e do nosso gênero, ignoremos a bíblia que tenta nos subtrair, nos desqualificar como se fôssemos seres menores ! Só assim poderemos derrubar essa dominação anti-ética, anti-científica e machista por excelência.

E aí, meninas ? Vai uma maçã ??? De minha autoria

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sou lua

insólita noite no rosto teu
tornei-me lua pra fazer-te meu
e no seu sorriso, e no seu alento
tornei-me estrela, depois o vento

Nas frases perfeitas que sua boca entorta
tornei-me crua, tornei-me morta
tornei-me alma que subsiste
que de sofrer se insinua
que de amor é mais triste

Sou lua que de ser forte
se cala, se esconde, tem ânsia de morte
Sou lua que de esperar
não cresce, não brilha, só sabe minguar


-


Acho que fossa maior do que gripe só gripe duas vezes! É do vírus que tiro minhas poesias mais melosinhas... e sabe qual é a melhor parte em ser eu? É poder postar poesias assim sem parecer uma mulherzinha HAHAHA alguém duvida da minha virilidade feminina ?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tudo passa, perpassa e ultrapassa, pai.

Minhas lembranças tornam-se cada vez mais distantes e apagadas. Talvez não sinta mais tantos cheiros, talvez não lembre mais de todos os sorrisos... Mas ainda sim me lembro dos seus ternos bem cortados, dos seus sapatos de couro e camurça. Dos chocolates em cima da mesa, das xícaras de café quente no sofá branco da sala... Esqueço as más lembranças e dou espaço a tudo aquilo que me fez crescer. Lembro da última vez que o vi: Desgastado, magro, com todo o peso da vida nos olhos. Lembro do seu último dia e me lembro que da tristeza, você sorriu. Satisfez-se ao entender sua própria insatisfação. Cansou de lutar contra o incansável, quis fechar os olhos e entregar-se ao destino inevitável dos que ainda estão vivos.  Você morreu.  E com todos esses dias que passaram sob a sua ausência, sinto que também morro um pouco. Sinto que você é cada vez mais presente e que a saudade nunca foi tão cruel e asfixiante ... Sinto que a dor me faz bem. Ela me faz querer continuar para consolar a mim e aos que ficaram. Sim, falta algo. Falta você com seus ternos bem cortados, seus sapatos de couro e camurça. Falta meu pai empunhando sua xícara de café quente (que aliás, há muito já esfriou) no sofá branco da sala. Falta você me dizendo que “tudo passa, perpassa e ultrapassa”, desafiando esse troço na minha alma que é dor que não se cansa... Só algo não falta: o relógio. Este, que tanto te irritava continua lá... Continua contando as horas, e eu, contando os segundos desde que você se foi.

de minha autoria. Uma avenida de Pirapora receberá o nome do meu pai :'), recebi a notícia hoje. Não é um bom texto, não é criativo, não é legal... mas para mim é importante. Me fez lembrar de tudo... bastante

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Violência


Choro todo dia
Uma lágrima de cada vez
Choro pelo talvez
E por cada dor desse mundo

de minha autoria


"Entre 1998 e 2008, 521.822 mil pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil, colocando o país em sexto lugar no ranking da violência mundial " - Mapa da Violência

terça-feira, 12 de abril de 2011

Os bons costumes



Inicio o meu texto declarando: Tenho pavor de “bons costumes”. Para mim, isso é um nome pomposo, um eufemismo que exprime comportamento repressor e sexismo. Um nome que tende a encaixar o ser humano (principalmente a mulher) na coisificação e no estereótipo romântico. Partindo desse pressuposto, admito que sou contra bons costumes de qualquer tipo e em qualquer instância. Quantas vezes já fui repreendida, considerada frígida, condenada ao vulgarismo ¿ Prejulgada não só por homens, mas (pasmem) por semelhantes ! Mulheres agredindo umas as outras, sendo incoerentes ! Esse o maior perigo do bom costume: quando ele está tão infiltrado que nem se nota sua incoerência. Quando se mistura, quando é disseminado por suas próprias vítimas. Quando é internalizado e expresso, anos mais tarde, em vergonha e culpa. Não suporto conservadorismo ! Tenho pânico de conservadores e pânico redobrado se esses seres a quem me refiro são mulheres... Mulheres não ! Fêmeas que aos poucos vão se tornando objetos, receptáculos... Que demonstram gratidão às suffragettes com sua ausência e machismo. Parece-me que boas moças são aquelas que se calam, que consentem, que são símbolos de virtude e amor materno. Parece-me que ”moças para casar” são  aquelas que desempenham o papel de mero adereço, as amélias, as musas romantescas. Quantas mulheres, infectadas com esse tal “Bom costume” se espelham na Nísia Floresta ou na Simone de Beauvoir ¿ A resposta dessa retórica é: nenhuma. E para essas só resta a pejorativa classificação “femea”, sem o devido acento circunflexo e f minúsculo. Chega de Marílias, de Iracemas...  

de minha autoria

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Que se abrem, que se fecham. pernas-portas.

Me agrada o toque alheio, o devaneio, o abandono
Me agrada o sorriso sem riso, hedonismo, o corpo sem dono
Ah, pernas-portas com um quê de Virgem Maria
Dessa vida, meio insossa, só se leva a putaria
Ah, pernas de portas, status quo, olhar cigano
Sou vontade corrompida, sou imundo, sou humano

*O que há nessa vida, se não o desejo ? de minha autoria

segunda-feira, 28 de março de 2011

Noite do meu bem - Dolores D.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a pureza que eu quero lhe dar


Fui criada pela minha avó. Sou menina crescida à base de serestas...À base de Luiz gonzaga e Dalva de Oliveira. Por um acaso escutei "noite do meu bem" numa peça que assisti essa semana, no centro cultural. Há anos não escutava essa música... Ela realmente participou da minha infância então bateu AQUELA nostalgia. Deu saudade da minha avózinha, dos vinis dela, das tardes sem cursinho, francês, sem academia, ballet... A vida era simples, sabe ? HAHAHA

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cartas de Solis

Passos teciam uma sinfonia desafinada... O sol mal nasce e já era possível escutar os sons do dia lá fora. O cheiro úmido da alvenaria da casa e o musgo que saltava entre as rochas da calçada marcavam características peculiares daquela viela. Com um copo de uísque vazio nas mãos, Dona Solis ordenou à criada que lhe trouxesse outra dose, depois, retirou do velho baú seu precioso calhamaço de cartas, nunca antes lido... Palavras purgadas, uma a uma, dor a dor; Toda a sua vida retratada, naqueles quinhentos e poucos envelopes trancados à chave. A velha morava numa casinha simples, as paredes eram de reboco e o espaço era modesto; dois ou três cômodos, talvez, suficientes para ela e mais ninguém. Viveu alí todos os dias da sua vida e lá se proprôs a morrer. Era uma casa vazia, como a proprietária. Dona Solis era magra, conversava inclinando-se para frente, quase afônica, sussurando com voz rouca e arrastada. Com certeza mais de setenta anos – Era enrugada, de cabelos secos, unhas tortas e sujas.  Estava doente, há décadas doente de uma enfermidade que lhe trazia delírios e dores, a cada hora mais freqüentes. Para manter sua sobrevida, passou a vender o que estava sobrando... Terminou sendo quase a casa inteira, exceto por seus livros e seu baú de cartas. Dona Solis nunca temeu ser breve; seu maior medo era ser cega, surda e muda para as causas do mundo. A velha nunca teve medo de chegar ao fim da vida, nem quando jovem, mas a morte havia se tornado algo tão iminente que ela passou a ter horror a ela. Talvez esse seja o verdadeiro mal da velhice, perceber que aquela pretensa imortalidade mais própria da juventude não é possível. A fumaça do cigarro de solis dançava entre os dedos, percorria portas e janelas até se misturar com o vento forte da manhã. Na janela, acomodava-se em seu xale cinza enquanto ouvia um rádio tímido sussurar que os EUA acabara de lançar bombas no Japão. – Não sou mesmo desse tempo. Esse mundo não há quem concerte – Repetia, depois ria o riso histericamente embriagado dos grandes poetas. Quando jovem, queria concertar o planeta. Seus vinte e poucos anos autorizavam esse tipo de desejo... Quando nos resta muito tempo de vida, é forte a ilusão de que o mundo será mais doce amanhã.  Dona Solis, olhava todos os dias para o caminho de pedras que se apagava antes do fim da rua. Por que teria se apagado o caminho, se o prédio da escola onde estudou ainda estava lá ¿ Talvez porque os alunos não mais. Estes já tinham ido há muitos invernos. E ela não demoraria. Num canto mudo, o rádio continuava sobre um coto de braço correndo embaixo da chuva radioativa, atônito, sem destino. Sobre uma mãe, transtornada, carregando os destroços do filho enrolados em um pano branco. Sobre Dona Solis, Sentada no tapete de pele, tocando os papéis com a ponta dos dedos, num gesto carinhoso como a despedir-se de si própria. Quantas mil histórias naqueles envelopes, histórias de um tempo em que a vida era simplesmente ver casais dançando como mariposas, ouvir as ondas ruidosas e encher cálices de vinho para rapazes bonitos nos balcões das tabernas. Dona Solis acendeu sua lareira e ateou fogo, de uma só vez em todas as cartas lacradas, agora eternamente inéditas. Ela morreu pouco tempo depois, acuada no sofá da sala, junto das cinzas de suas memórias que ela tentava, em vão, reconstruir. 




de minha autoria.

domingo, 13 de março de 2011

Poema da lascívia (Dia 14 de março)

Suas linhas lúdicas e inconfessáveis
Pernas de prosas candentes em cada detalhe que se atreve
Despe esses teus eus em verso e rasga toda a métrica do meu vestido


Feliz dia da poesia ! Infinitos níveis de formidabilidade para essa data, sempre ovacionando essa arte foda que é poetar. Precisei fazer um poema, mesmo sem inspiração, para comemorar isso. Palmas, palmas, palmas para todos os poetas, poetisas e aspirantes.


à propósito, hoje faz 6 meses do início de algo que mantenho com Yure Alves Veloso. Isso precisa ficar registrado.


de minha autoria.

domingo, 6 de março de 2011

Ménade

Definitivamente não me encaixo no padrão de uma cidadã de bem. Nunca fui discreta, tão pouco conveniente nos meus excessos. Nunca quis ser esnobe, metida a intelectual, nunca quis me preocupar com o dizer correto e bem soletrado das minhas palavras. Passei uma vida inteira me preocupando, agora estou pronta para dar uma baforada na cara daqueles que mal me enxergavam, mas que fazem questão de inquirir minhas ações. Nunca quis opiniões, nunca quis viver sistematicamente... isso pra mim é como cerveja sem álcool. Bebo, porque álcool e poesia nunca foram incompatíveis, fumo, porque não quero viver até os 90, sigo a dieta do “faça tudo o que quiser quando quiser”. Melhor é quando os pratos são cheios. Se o mundo fosse menos moralista, talvez não me fosse assim tão indiferente, é, talvez eu não queira uma vida pacata, vestir uma capa que cubra meu corpo e aperte minha alma. talvez eu queira morrer esparramada na via pública, como a boa ménade que sou.


de minha autoria.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Poema para a bailarina

Sapatilhas aliviam acordes dissonantes
Me atraem, me arrastam por caminhos circundantes
Ah, bailarina, desejos advindos do seu "não saber-se" absoluta
me obrigam, me fazem te querer mais dissoluta

Gira, gira e em um segundo, o mundo e ela, girando juntos



de minha autoria.





sábado, 19 de fevereiro de 2011

"Disseram que fizeram meu velório. 10 gatos pingados dizendo que representam a população de Montes Claros... Quem está por trás?"
Tweet de Luiz Tadeu Leite, prefeito de Montes Claros, Minas Gerais (@tadeu_leite)


Sabe o que nós estamos fazendo nesse exato momento, Exmo. Prefeito ? Rindo da sua cara. Esses são os quase 4 mil "10 gatos pingados". Feliz aniversário, para você e sua família ! Afinal, são 58 anos de vida... e pelo menos 30 de safadeza. 









terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Caixa de costura

Costureira, mora em sua caixa, na sua vida hermeticamente fechada, nos seus pontos perfeitos. Alinhava palavras, é serva, se cala... se enche de um silêncio ambivalente... Costureira, você pensa diferente. Mas sente, sonha, vive como todos.Não é livre, está presa a sua postura.Linha, tesoura, trapo, caixa de costura.

*Alinhavar: 
Ajustar ou coser com pontos largos o que depois tem de ser cosido com outro ponto miúdo. "Ele/ela alinhava" no presente do indicativo




de minha autoria.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pedantismo disfarçado


Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade

Joseph Goebbels




Para manipular a onipresente “opinião pública”, é fato que você terá que repetir a sua mentira 
algumas vezes... Mas dificilmente chegarão a mil. 

Convencer é fácil, mais fácil ainda se estamos falando dessa juventude 
cultzinha que reproduz qualquer filosofia de boteco e acredita
em qualquer mentirinha inteligente que lhe é contada. O 
dom da cegueira desses jovens me impressiona, deve ser muito bom se 
sentir superior, se sentir navegando por mares do conhecimento nunca 
d'antes navegados... Só pelo fato de ter tempo de sobra e banda larga 
em casa. Reparei um efeito colateral engraçado nas vítimas dessa tal 
“febre do mainstream”:os que se consideram os reis da informação e da justiça, 
são os mais mesquinhos e fechados à opinião alheia. SABE O QUE VOCÊ, 
METIDINHO, gera nas pessoas ? Ojeriza, vergonha alheia e tudo o que é 
oposto à admiração. As pessoas (digo as mais sensatas), enquanto balançam 
a cabeça para a sua masturbação sociológica, estão no fundo pensando o 
quão pedante você é. E é nessa linha de pensamento que você me pergunta:
"Como fugir do pedantismo ?" O primeiro passo é admitir que é 
ignorante, que é manipulado; 
Admitir que você é uma ovelha desse sistema como qualquer um de nós. Sugiro 
um exercício de auto-questionamento: Será mesmo que tudo o que me 
disseram é verdade ? Será que ser um pseudo Cult com acesso à 
internet é realmente a melhor forma de mostrar ao mundo o meu 
conhecimento ? É constrangedor ver pessoas, com uma gama imensa de 
oportunidades donas de um nível de informação tão baixo. Pior ainda 
é ver essas mesmas pessoas, tentando jogar na sua cara que são, de 
alguma forma, mais desenvolvidas intelectualmente e socialmente que 
você. Se enganam. Mas se enganam feio ! “Só sei que nada sei”, aceitar 
isso é a maior provação de conhecimento que alguém pode me dar, é o 
caminho certo para qualquer pessoa que busca, verdadeiramente, algum 
savoir-faire na vida.  




de minha autoria.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Porcelain moi-même



Immaculate porcelain marionette,
fancy, chancy, pretty chouette. 
someday, my darling, you will fall
and realize you aren't perfect after all




de minha autoria.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Afinal, o que querem as mulheres ?


(Luz acesa na parte esquerda do palco. Nela, um homem que parece brincar com uma caixa, como se ela fosse um Vídeo Game. Parece irritado. Enquanto fala, manuseia a caixa e tira dela várias coisas do vestuário feminino)

Homem: AH ! Essa máquina me deixa louco ! Os botões parecem igualzinhos aos das outras ! Mas não são. E o que me surpreende é que essa não veio com nenhum manual de comandos... Já se passaram dias, anos... e não sei como ir ao próximo nível, me esquivar das armadilhas, como obter melhores resultados... O pior de tudo é que essa merda não fala comigo, não me dá respostas claras, é cifrada, misteriosa, perfeita... ADMITO MINHA ABSOLUTA INCOMPETÊNCIA EM JOGAR ESSE JOGO ! É tudo vá por aqui, faça isso, faça aquilo... Insano, jogo insano ! Até pedi ajuda para jogadores mais... experientes... inútil ! Me disseram que essa aqui não era máquina: Que era uma máquina. Uma.

(Luz se apaga e imediatamente se acende do outro lado do palco. Desse lado, uma mulher, com várias sacolas. Enquanto fala, tira delas vários sapatos velhos, novos... E no fim, dois ternos: um será descartado)

Mulher: AH! Sapatos, como eles me atraem ! Sapatos... Tento sempre manter o foco nas coisas essenciais, mas o  apelo desse objeto me puxa de um jeito que eu não consigo resistir... E que alegria me dá fazer compras! Um tesão indescritível. Tenho gana de prazer só de olhar para alguma coisa que me chama a atenção. Acho que ainda não inventaram uma palavra que possa descrever isso de trocar sapatos velhos e desgastados pela rotina do dia-a-dia por sapatos novos, brilhantes... Que precisarão ser amados, pisados, amaciados... até serem descartados novamente. Sapatos ! Como me atraem, como !


-


Trechos meio inúteis de alguma coisa que eu pensei para futuros roteiros. inúteis mesmo. de minha autoria.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Garçom, por favor ! (triplix)


uma dose de realidade
forte, dupla
e com vontade


Me sinto só, mas sabe ? Me sinto ótima. Pela primeira vez na vida, me sinto ótima. Descobri que seres humanos não são feitos de companhias. Alguns deles são feitos puramente de álcool e tabaco.


de minha autoria.