segunda-feira, 28 de março de 2011

Noite do meu bem - Dolores D.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a pureza que eu quero lhe dar


Fui criada pela minha avó. Sou menina crescida à base de serestas...À base de Luiz gonzaga e Dalva de Oliveira. Por um acaso escutei "noite do meu bem" numa peça que assisti essa semana, no centro cultural. Há anos não escutava essa música... Ela realmente participou da minha infância então bateu AQUELA nostalgia. Deu saudade da minha avózinha, dos vinis dela, das tardes sem cursinho, francês, sem academia, ballet... A vida era simples, sabe ? HAHAHA

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cartas de Solis

Passos teciam uma sinfonia desafinada... O sol mal nasce e já era possível escutar os sons do dia lá fora. O cheiro úmido da alvenaria da casa e o musgo que saltava entre as rochas da calçada marcavam características peculiares daquela viela. Com um copo de uísque vazio nas mãos, Dona Solis ordenou à criada que lhe trouxesse outra dose, depois, retirou do velho baú seu precioso calhamaço de cartas, nunca antes lido... Palavras purgadas, uma a uma, dor a dor; Toda a sua vida retratada, naqueles quinhentos e poucos envelopes trancados à chave. A velha morava numa casinha simples, as paredes eram de reboco e o espaço era modesto; dois ou três cômodos, talvez, suficientes para ela e mais ninguém. Viveu alí todos os dias da sua vida e lá se proprôs a morrer. Era uma casa vazia, como a proprietária. Dona Solis era magra, conversava inclinando-se para frente, quase afônica, sussurando com voz rouca e arrastada. Com certeza mais de setenta anos – Era enrugada, de cabelos secos, unhas tortas e sujas.  Estava doente, há décadas doente de uma enfermidade que lhe trazia delírios e dores, a cada hora mais freqüentes. Para manter sua sobrevida, passou a vender o que estava sobrando... Terminou sendo quase a casa inteira, exceto por seus livros e seu baú de cartas. Dona Solis nunca temeu ser breve; seu maior medo era ser cega, surda e muda para as causas do mundo. A velha nunca teve medo de chegar ao fim da vida, nem quando jovem, mas a morte havia se tornado algo tão iminente que ela passou a ter horror a ela. Talvez esse seja o verdadeiro mal da velhice, perceber que aquela pretensa imortalidade mais própria da juventude não é possível. A fumaça do cigarro de solis dançava entre os dedos, percorria portas e janelas até se misturar com o vento forte da manhã. Na janela, acomodava-se em seu xale cinza enquanto ouvia um rádio tímido sussurar que os EUA acabara de lançar bombas no Japão. – Não sou mesmo desse tempo. Esse mundo não há quem concerte – Repetia, depois ria o riso histericamente embriagado dos grandes poetas. Quando jovem, queria concertar o planeta. Seus vinte e poucos anos autorizavam esse tipo de desejo... Quando nos resta muito tempo de vida, é forte a ilusão de que o mundo será mais doce amanhã.  Dona Solis, olhava todos os dias para o caminho de pedras que se apagava antes do fim da rua. Por que teria se apagado o caminho, se o prédio da escola onde estudou ainda estava lá ¿ Talvez porque os alunos não mais. Estes já tinham ido há muitos invernos. E ela não demoraria. Num canto mudo, o rádio continuava sobre um coto de braço correndo embaixo da chuva radioativa, atônito, sem destino. Sobre uma mãe, transtornada, carregando os destroços do filho enrolados em um pano branco. Sobre Dona Solis, Sentada no tapete de pele, tocando os papéis com a ponta dos dedos, num gesto carinhoso como a despedir-se de si própria. Quantas mil histórias naqueles envelopes, histórias de um tempo em que a vida era simplesmente ver casais dançando como mariposas, ouvir as ondas ruidosas e encher cálices de vinho para rapazes bonitos nos balcões das tabernas. Dona Solis acendeu sua lareira e ateou fogo, de uma só vez em todas as cartas lacradas, agora eternamente inéditas. Ela morreu pouco tempo depois, acuada no sofá da sala, junto das cinzas de suas memórias que ela tentava, em vão, reconstruir. 




de minha autoria.

domingo, 13 de março de 2011

Poema da lascívia (Dia 14 de março)

Suas linhas lúdicas e inconfessáveis
Pernas de prosas candentes em cada detalhe que se atreve
Despe esses teus eus em verso e rasga toda a métrica do meu vestido


Feliz dia da poesia ! Infinitos níveis de formidabilidade para essa data, sempre ovacionando essa arte foda que é poetar. Precisei fazer um poema, mesmo sem inspiração, para comemorar isso. Palmas, palmas, palmas para todos os poetas, poetisas e aspirantes.


à propósito, hoje faz 6 meses do início de algo que mantenho com Yure Alves Veloso. Isso precisa ficar registrado.


de minha autoria.

domingo, 6 de março de 2011

Ménade

Definitivamente não me encaixo no padrão de uma cidadã de bem. Nunca fui discreta, tão pouco conveniente nos meus excessos. Nunca quis ser esnobe, metida a intelectual, nunca quis me preocupar com o dizer correto e bem soletrado das minhas palavras. Passei uma vida inteira me preocupando, agora estou pronta para dar uma baforada na cara daqueles que mal me enxergavam, mas que fazem questão de inquirir minhas ações. Nunca quis opiniões, nunca quis viver sistematicamente... isso pra mim é como cerveja sem álcool. Bebo, porque álcool e poesia nunca foram incompatíveis, fumo, porque não quero viver até os 90, sigo a dieta do “faça tudo o que quiser quando quiser”. Melhor é quando os pratos são cheios. Se o mundo fosse menos moralista, talvez não me fosse assim tão indiferente, é, talvez eu não queira uma vida pacata, vestir uma capa que cubra meu corpo e aperte minha alma. talvez eu queira morrer esparramada na via pública, como a boa ménade que sou.


de minha autoria.